Morre aos 73 anos Txai Macedo, referência na defesa dos povos indígenas no Acre

Indigenista atuou por mais de quatro décadas na identificação e demarcação de Terras Indígenas e ajudou a consolidar quase metade do território acreano como área protegida

O Acre perdeu, na manhã deste domingo (15), uma de suas principais referências na defesa socioambiental. O indigenista e sertanista Txai Macedo, nome pelo qual ficou conhecido Antônio Luiz Batista de Macêdo, morreu aos 73 anos, em Cruzeiro do Sul, onde vivia. Ele enfrentava um câncer no pulmão.

Ao longo de mais de quatro décadas, Txai construiu uma trajetória vinculada à defesa dos direitos territoriais de povos indígenas, seringueiros e ribeirinhos. Contribuiu diretamente para a identificação e demarcação de mais de 50 Terras Indígenas no Acre. Seu trabalho técnico na Fundação Nacional dos Povos Indígenas (Funai) esteve associado à presença constante nas aldeias, ao diálogo com lideranças e à articulação institucional em defesa da floresta e dos direitos constitucionais dos povos indígenas.

Ele teve papel de destaque na fundação da Comissão Pró-Indígenas do Acre, em 1979, em um contexto de intensificação dos conflitos fundiários na Amazônia. O período coincidia com a expansão da fronteira agropecuária e com a repressão do regime militar, cenário em que comunidades indígenas, seringueiros e ribeirinhos enfrentavam invasões, grilagem e violência no campo.

Txai também integrou articulações que aproximaram lideranças indígenas e trabalhadores da floresta. Ao lado de nomes como Chico Mendes e Aílton Krenak, participou da construção da Aliança dos Povos da Floresta, movimento que buscou superar divisões históricas e unificar a defesa dos territórios diante da pressão de grileiros e grandes proprietários de terra.

Colegas e parceiros de trajetória destacam que Txai compreendia o território como elemento central de vida, cultura e memória. Não foram raros os episódios em que enfrentou ameaças de invasores e grupos armados em disputas por terra. Sua atuação esteve associada à defesa da legalidade e à cobrança por políticas públicas voltadas à proteção das comunidades tradicionais.

A morte de Txai Macedo mobilizou organizações e lideranças indígenas, que emitiram notas públicas destacando a dimensão de seu legado na consolidação de direitos territoriais e na articulação política entre povos da floresta.

Com trajetória marcada pelo diálogo e pela presença nas comunidades, Txai Macêdo deixa legado na defesa dos povos indígenas. Foto: Arquivo Pessoal

Legado e compromisso

Em nota conjunta assinada por Francisco Piyãko e por lideranças da Terra Indígena Kampa do Rio Amônia, do povo Ashaninka, a morte de Txai foi descrita como um “dia de dor profunda”, mas também de reafirmação de compromisso com o legado deixado por ele.

No documento, as lideranças destacam que, nas décadas de 1970 e 1980, o Vale do Juruá vivia um contexto de invisibilidade e violência, com pressão de madeireiros, pecuaristas e especulação fundiária. Segundo a nota, Txai teve papel decisivo na articulação entre indígenas e seringueiros, contribuindo para a consolidação de territórios e para a criação das primeiras Reservas Extrativistas na região.

Para o povo Ashaninka do Rio Amônia, a relação com o indigenista ultrapassou o campo político. A nota afirma que ele demonstrava respeito pela identidade, espiritualidade e conhecimentos tradicionais do povo, e que “não nos via como um povo que precisava ser tutelado, mas como irmãos dotados de uma sabedoria ancestral que precisava ser valorizada”.

As lideranças afirmam ainda que a continuidade da luta é uma “herança de propósito” assumida pelas atuais gerações. “Agora, o nosso dever sagrado é cuidar das conquistas que o Txai Macedo trouxe e colocou em nossas mãos”, diz o texto.

Francisco Piyãko encerra afirmando que, para o povo Ashaninka, Txai é considerado um “txowa” e que sua presença permanece como guia espiritual. “Ele não está partindo, ele está vindo para nós agora, em espírito, para continuar essa caminhada junto com o seu povo”, declarou.

Em nota conjunta Francisco Piyãko e lideranças da Terra Indígena Kampa do Rio Amônia, do povo Ashaninka manifestam pesar pelo falecimento de Txai Macedo. Foto: Arquivo Pessoal

A Comissão Pró-Indígenas do Acre também divulgou nota de pesar neste domingo. No documento, a entidade afirma que Txai dedicou a vida à defesa “inegociável do direito à terra, à vida digna e à floresta em pé” e o descreve como um dos idealizadores da Aliança dos Povos da Floresta, articulação construída ao lado de lideranças como Chico Mendes. A organização ressalta que sua atuação fortaleceu conquistas históricas, entre elas a criação da Reserva Extrativista Alto Juruá, considerada a primeira do Brasil.

A nota também destaca que sua militância ultrapassou o campo político. Segundo a Comissão, Txai construiu sua trajetória no diálogo, no respeito às culturas tradicionais e na presença constante junto às comunidades, compreendendo que justiça social e justiça ambiental são dimensões indissociáveis.

Txai deixa filhos, netos e um legado que se confunde com a própria história recente da luta indígena no Acre. Sua trajetória atravessa décadas de disputas, avanços institucionais e construção de políticas socioambientais que moldaram o estado. Sua ausência encerra uma presença física, mas mantém viva uma referência para novas gerações que atuam na defesa da floresta e dos direitos coletivos.

Txai Macedo, presente!

Nota na íntegra das lideranças do povo Ashaninka da Terra Indígena Kampa do Rio Amônia

Nota conjunta das lideranças do povo Ashaninka da Terra Indígena Kampa do Rio Amônia:

“Nós temos a responsabilidade de cuidar das conquistas de Txai Macedo

Hoje é um dia de dor profunda. A despedida de Antônio Luiz Batista de Macêdo, nosso eterno Txai Macedo, deixa um vazio imenso no coração da floresta e de todos nós que lutamos pela vida na Amazônia. Mas, mais do que tristeza, este é um momento de reconhecer e registrar para a história a imensidão do seu legado.

Para compreender a verdadeira importância de Macedo, é preciso contextualizar o que era o Vale do Juruá nas décadas de 1970 e 1980. Aquela era uma terra de invisibilidade e violência, onde o avanço brutal de madeireiros, pecuaristas e a especulação fundiária ameaçavam engolir as populações tradicionais. Foi nesse cenário que Macedo se agigantou. Ele foi a peça-chave para costurar algo que parecia impossível: a união entre indígenas e seringueiros, construindo a Aliança dos Povos da Floresta. As conquistas que temos hoje na região do Juruá, como a demarcação de nossos territórios e a criação das primeiras Reservas Extrativistas, têm as digitais, o suor e a coragem dele.

No entanto, para nós, do povo Ashaninka do Rio Amônia, a relação com o Txai Macedo vai muito além de conquistas políticas ou territoriais. Sua maior marca foi o respeito inabalável pela nossa identidade, pela nossa espiritualidade e pelo nosso conhecimento. Ele não nos via como um povo que precisava ser tutelado, mas como irmãos dotados de uma sabedoria ancestral que precisava ser valorizada. Ele sentou conosco, bebeu do nosso Kamarãpy, ouviu os nossos pajés e nos ajudou a traduzir a nossa voz para o mundo.

Se hoje a Apiwtxa é forte, se o nosso território tem a floresta em pé, se as nossas escolas ensinam a nossa língua e se nós caminhamos com as próprias pernas e de cabeça erguida, é porque lá atrás, nos momentos mais sombrios, tivemos a mão estendida de um verdadeiro “Txai”, que significa mais que um amigo, significa metade de nós mesmos.

A continuidade dessa luta não é uma herança de sangue, mas uma herança de propósito. A continuidade está nas nossas mãos. As conquistas que ele fez, com tanta intensidade e força, foram entregues a nós. Portanto, quem é a herança viva do Txai Macedo agora? Somos nós, as nossas lideranças. É o povo indígena e são os povos extrativistas.

Independente de qualquer dor que estejamos sentindo agora, nós assumimos aqui o compromisso inegociável de dar continuidade a essa história. No momento mais difícil, de lutar e conquistar o nosso espaço, o Macedo esteve na linha de frente por nós. Agora, o nosso dever sagrado é cuidar das conquistas que o Txai Macedo trouxe e colocou em nossas mãos.

Faremos isso com a mesma intensidade, com o mesmo respeito e com a mesma força que ele nos ensinou.

Para o povo Ashaninka, ele é um Txowa (japó). Por isso, no meu coração, eu entendo que o nosso Txai não se foi, ele virou um Japó. A gente quer ele do nosso lado, voando como um Japó, para sempre guiar a gente. Ele não está partindo, ele está vindo para nós agora, em espírito, para continuar essa caminhada junto com o seu povo.

Francisco Piyãko
Liderança do Povo Ashaninka
Junto com todas as lideranças da Terra Indígena Kampa do Rio Amônia, Ashaninka-Apiwtxa!

Nota da Comissão Pró-Indígenas do Acre

Nota de pesar da Comissão Pró-Indígenas do Acre:

NOTA DE PESAR – Txai Macedo
15 de fevereiro de 2026

A Comissão Pró-Indígenas do Acre (CPI-Acre) manifesta seu profundo pesar pelo falecimento do indigenista e sertanista Antônio Luiz Batista de Macêdo, nosso querido Txai Macedo, ocorrido em Cruzeiro do Sul, hoje, dia 15 de fevereiro.

Txai Macedo foi um dos fundadores da CPI-Acre no final dos anos 1970 e, junto a outros companheiros e companheiras como Chico Mendes, dedicou sua vida à luta pelos direitos dos povos indígenas, dos seringueiros e das comunidades tradicionais do Acre. Com Txai Macêdo, sonhamos, acreditamos e transformamos sonhos em realidade.

Sua trajetória foi marcada pelo compromisso e pela defesa inegociável do direito à terra, à vida digna e à floresta em pé. Décadas atrás, em tempos de muitos conflitos, ameaças e injustiças, atuou como ponte entre povos indígenas, seringueiros e comunidades tradicionais, sendo um dos idealizadores da Aliança dos Povos da Floresta. Fortaleceu lutas históricas que garantiram conquistas fundamentais para o Acre, como a criação da Reserva Extrativista Alto Juruá — a primeira do Brasil — e de outros territórios protegidos, além do reconhecimento dos modos de vida da floresta.

Com pioneirismo, alegria e muita coragem, foi uma liderança que compreendeu, antes de muitos, que proteger os povos da floresta é proteger a própria floresta, e que justiça social e justiça ambiental caminham juntas. Sua luta não foi apenas política, mas também humana, construída no diálogo, no respeito às culturas, na escuta atenta e na presença constante junto às comunidades.

Mesmo após sua partida, sua história seguirá viva nas aldeias das terras indígenas, nas comunidades das reservas extrativistas, nas organizações fortalecidas e nos corações e pensamentos de todos aqueles que seguem acreditando que é possível viver da floresta sem destruí-la, e que os direitos conquistados precisam ser permanentemente defendidos. Seu legado permanecerá nas novas gerações de indigenistas e defensores ambientais, e seguirá presente na memória e na luta dos povos indígenas e comunidades tradicionais do Acre.

Neste momento de dor, nos solidarizamos com os familiares, amigos(as), companheiros(as) de caminhada e com todas as aldeias e comunidades das florestas do Acre, desejando força e serenidade.

Gratidão por tanto, Txai Macêdo. Siga seu caminho na luz, no amor e na paz. Seja cuidado agora pela Rainha da Floresta e por todos os espíritos de luz em que sempre acreditou nesta vida.

Rio Branco, 15 de fevereiro de 2026

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